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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

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"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

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Parafraseando Padre António Vieira, um dos defeitos que mais detesto nos carapaus-de-corrida é a sua arrogância para com os pequenos, quando eles próprios não cabem na taloca de um dente de um espadarte ou de um tubarão.

Vem isto a propósito do coro de indignação dos carapaus-de-corrida por causa da falta de solidariedade manifestada pelo ministro das Finanças da Holanda relativamente aos países mais pobres e com mais dificuldades da zona euro. Sendo certo que os carapaus-de-corrida nunca demonstraram a mínima solidariedade pelos que ainda são mais pequenos do que eles. Bem pelo contrário.

Ainda aqui há dois ou três anos, num dos muitos textos que publiquei sobre a solidariedade que devia haver entre clubes, à semelhança do que sucede em todas as ligas europeias, um amigo meu benfiquista (que colheu de imediato o aplauso dos seus compadres), quando eu defendi a distribuição das receitas segundo o modelo espanhol (um dos menos solidários da Europa), insurgiu-se porque o Benfica, pela sua grandeza, não tinha nada de partilhar os direitos televisivos com os pequenos.

No entanto, os mesmos seis milhões de benfiquistas, mais os seis milhões de sportinguistas e portistas que pensam rigorosamente da mesma maneira, ao ponto de silenciarem os pequenos, inclusive, no comentário aos jogos em que estes participam, ficam muito indignados quando os holandeses reagem como eles quando se lhes pede solidariedade para os que menos têm. Este espírito mesquinho dos carapaus-de-corrida está retratado na perfeição no herói pícaro (“o pobre de mim”) da “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto. Era, pois, uma boa altura para ler uma das obras primas de literatura portuguesa e que melhor retrata as duas caras dos carapaus-de-corrida.

O outro defeito que abomino nos carapaus-de-corrida é a inveja. Dizia Einstein que os medíocres são invencíveis porque são a maioria. Disso ninguém duvida. Em todo o caso, os medíocres, apesar de serem a maioria, dividem-se em dois grandes grupos: os inteligentes e os carapau-de-corrida. Qual a diferença? É que os medíocres-inteligentes valorizam as pessoas que são mais inteligentes do que eles, enquanto os carapaus-de-corrida têm-lhes um ódio de morte, desenvolvendo uma inveja doentia, ao ponto de ficarem mais satisfeitos com o mal dos outros do que com o bem próprio. Por esta razão, dizia Bernard Shaw, com uma certa graça, que “a democracia é um mecanismo que garante que nunca seremos governados melhor do que aquilo que merecemos.

E, se há alturas onde é essencial ser liderado pelos melhores (os dotados da sabedoria da coruja e da visão do falcão), é precisamente nas épocas de guerra, de grandes calamidades e de pandemias.

Nem populares, nem populistas, precisamente os dois tipos de políticos que os carapau-de-corrida mais apreciam: os primeiros porque lhes dão palmadinhas nas costas e os carapaus-de-corrida tornam-se todos dengosos, quando algum senhor presidente do que quer que seja lhe dá uma palmadinha nas costas ou os elogia; os segundos porque têm a desfaçatez de dizer do alto do seu púlpito as atoardas que os carapaus-de-corrida dizem nas redes sociais e nas mesas de café.

Na última década, como já, por diversas vezes, referi o único líder nacional e mundial em quem eu confio é na Angela Merkel. E, se me tranquiliza saber que a Alemanha, Portugal e a UE estão nas suas mãos, assusta-me saber que o seu mandato está a chegar ao fim e que já não se vai recandidatar.

Santana-Maia Leonardo - Diário As Beiras de 8-4-2020