Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

COLUNA VERTICAL


Terça-feira, 14.06.11

AS REFORMAS ESTRUTURAIS

 

As reformas em Portugal são como um adorno clássico do ministério – como o correio, como os bordados da gola! Não são uma organização do país – são um pretexto da pasta.

 

Todo o ministro que entra – deita reforma e coupé. O ministro cai – o coupé recolhe à cocheira (= garagem) e a reforma à gaveta. (…)

 

Cada ministro tem a peito apresentar, classicamente, como um dever, como um documento, como uma justificação da sua nomeação – uma reforma.

 

Os jornais falam um momento, a oposição arranja umas certas representações na província contra elas, - as comissões instalam-se e metem os pés nos capachos para discutir – e no entanto o ministério, por uma intriga, por uma bambocha, por um enredo - cai – e a reforma segue-o na sua saída, com a fidelidade de um cão e a esterilidade de um boneco!

 

Isto foi escrito em 1872 (repito: 1872) por Eça de Queirós, em As Farpas.

Mas podia ter sido escrito hoje ou amanhã ou daqui a um ano.

Porque 140 anos depois, não há político português que não anuncie

a urgência das reformas e ministro que não tenha a pretensão de as implementar.

Para no fim, ficar tudo na mesma. Ou melhor, ficar pior.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Segunda-feira, 06.06.11

A PESADA HERANÇA DE PASSOS COELHO

Santana-Maia Leonardo - in Nova Aliança 

 

O slogan do PSD das últimas legislativas é enganador porque transmite a falsa ideia de que a hora de mudar era agora, quando, na verdade, agora só vamos mudar pela força das circunstâncias e com grande dose de sofrimento, em virtude de não termos mudado quando devíamos, ou seja, há muito tempo.

 

Em boa verdade, nós, nestas eleições, não elegemos um primeiro-ministro, mas tão-só o administrador da insolvência. Ninguém espere, pois, que o pesadelo tenha passado apenas por termos afastado da gestão do país esse administrador incompetente e irresponsável que foi José Sócrates. Não, meus queridos amigos, agora vamos ter de percorrer um longo e doloroso caminho para pagar as dívidas da sua gestão absolutamente irresponsável e ruinosa.

 

Passos Coelho tem, no entanto, uma qualidade e um mérito que me transmitem alguma confiança.

 

Quanto à qualidade, o facto de não ter qualquer experiência governativa. Com efeito, tendo todos os políticos portugueses com experiência governativa nos últimos 20 anos contribuído decisivamente para a destruição da economia, da educação e da justiça, não via como alguém poderia merecer o voto dos portugueses com uma nódoa dessas no currículo.

 

Quanto ao mérito, o facto de ter tido a coragem de apresentar não só um programa eleitoral (o PSD foi o único partido a fazê-lo) como também um programa que rompe com toda a tradição de indefinição política que tem caracterizado a política portuguesa e o próprio PSD. Com efeito, o programa eleitoral do PSD assume-se declaradamente como um programa de direita moderada liberal, demarcando-se totalmente da matriz social-democrata e, consequentemente, daquela zona de águas turvas, denominada Bloco Central, onde muitos militantes do PSD gostam de navegar. E isto revela uma grande coragem, para mais num tempo em que a esquerda tem acenado sistematicamente com o papão do neoliberalismo, à semelhança do que fazia Salazar com o papão do comunismo.

 

Ou seja, o tempo em que PSD e PS se reclamavam da social-democracia, o tempo do discurso, que também chegámos a ouvir aqui em Abrantes, de que "o programa que o PS executa é o do PSD, mas nós somos mais competentes do que eles", acabou. O PSD de Passos Coelho não tem nada a ver com o PS, nem com a social-democracia, ocupando hoje um espaço ideológico completamente diferente.

 

Esta redefinição do espaço político português era uma reforma urgente e que carecia de ser feita. Ao apresentar este programa eleitoral e, com ele, conseguir vencer as eleições, Passos Coelho concretizou a primeira grande reforma estrutural da política portuguesa.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Quinta-feira, 17.03.11

A CORRIDA DE BURROS

Santana-Maia Leonardo - in Nova Aliança de 4/3/11

Todos eles convergem quer no diagnóstico do "Estado onde estamos", quer na defesa do estádio onde devíamos estar. E todos estão também convencidos de que para passar da actual situação para a solução, basta vontade política para implementar as miraculosas reformas estruturais que todos defendem.

Nos últimos dois meses, li, entre outros, vários livros sobre a situação portuguesa que aconselho: "Uma Tragédia Portuguesa" de Nogueira Leite, "O Nó Cego da Economia" de Vítor Bento, "Desatar o Nó" de Carrapatoso, "O Estado Onde Estamos" de Marques Mendes e "Como o Estado Gasta o Nosso Dinheiro" de Carlos Moreno.

Infelizmente, não basta. E esse é que é o problema.

Imagine o leitor uma corrida entre um burro e um carro de Fórmula 1 numa pista de alta velocidade. Quem acha que ganhava a corrida? A resposta correcta é só uma: depende do condutor. Sendo certo que a maioria dos portugueses conseguiam chegar ao fim montados no burro mas não conseguiam sequer arrancar com o carro de Fórmula 1. 

Ora, as nossas repartições públicas, tribunais, escolas, empresas, etc. estão cheias de gente que só tem formação e capacidade para andar de burro pelo que não é prudente pôr-lhe nas mãos um carro de Fórmula 1, mesmo que seja essa a solução para os nossos problemas. Para além de o serviço não ficar mais célere, ainda se arriscavam a causar graves acidentes.

Se queremos empresas competitivas, uma justiça célere e justa, serviços públicos eficientes, uma escola competente e exigente e partidos que não promovam nem premeiem o chico-espertismo, ou seja, se queremos dotar a sociedade portuguesa de verdadeiros "Fórmula 1" para competir ao mais alto nível, comecemos, então, pela selecção e pela formação dos condutores, antes de lhe pormos o carro nas mãos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Domingo, 06.02.11

A DESREGULAÇÃO DAS PROFISSÕES

Santana-Maia Leonardo - in O Diabo de 1/2/2011

 

Falar em reformas estruturais há vinte ou trinta anos ainda fazia sentido. Hoje não só não faz qualquer sentido como qualquer reforma estrutural que hoje se inicie só serve para lançar o caos no serviço onde a mesma for implementada. E a razão é muito fácil de compreender: se um indivíduo já tem dificuldades em guiar uma carroça, não é prudente colocá-lo ao volante de um Mercedes de última geração. 

 

Nos últimos trinta anos, assistimos, em Portugal, à total desregulação no acesso às profissões e aos canudos universitários. Em consequência desta desregulação, existe hoje um número muito significativo de professores, de advogados e de funcionários judiciais, para falar apenas nas profissões que melhor conheço, que não tem as competências mínimas para o exercício da sua profissão, revelando, inclusive, dificuldades básicas ao nível da compreensão e expressão escrita. E para se chegar a esta conclusão basta tão-só consultar meia dúzia de documentos ou processos numa escola ou num tribunal.

 

Eu sei que isto é duro de admitir, razão por que toda a gente se refugia cobardemente nas reformas estruturais como panaceia para iludir a dura realidade. Acontece que não se pode pretender levar a cabo uma reforma estrutural na Educação e na Justiça sem antes, por um lado, retirar do sistema todos aqueles (e são bastantes, esse é que é o problema) que não possuem as aptidões mínimas para o exercício das suas profissões e, por outro, sem dar a formação complementar àqueles que apresentem lacunas passíveis de ser corrigidas.

 

Não vale a pena pensar em reformas estruturais, se não se tiver a coragem de fazer esta selecção. Com maus professores, maus advogados e maus juízes todos os programas e todas as leis são más.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Perfil

SML 1b.jpg



Visitantes


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Quimeras


Alma, Eléctrico!


Livros

Capa - 3ª Edição.jpg

Capa - Frente.jpg

Capa Bocage.jpg 

Capa.jpg 

Eléctrico - Um Clube com Alma.jpg

Mistério Sant Quat (I).jpg


Livros-vídeo


eBooks




calendário

Julho 2019

D S T Q Q S S
123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D