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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

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O Tintim nasceu no dia 13 de Abril de 2010. Como o próprio nome sugere, trata-se de um Fox Terrier de pelo cerdoso que nasceu demasiado… rústico para ser Milu. Ia para usar a palavra “másculo”, mas ainda bem que travei a tempo, caso contrário ainda era atropelado pelos igualitários do género. E, neste tipo de acidentes de viação, o culpado é sempre quem conduz pela direita. Graças a Deus que travei a tempo…

O Tintim foi trazido para minha casa pela mão do meu filho, mas, mal aqui chegou, mandou o meu filho ir dar uma volta, porque não estava para ser tratado como um cão. O Tintim, como todos os Fox Terrier, tem uma personalidade muito vincada. Gosta de ser tratado como uma pessoa. Mas como uma pessoa dos países nórdicos, bem entendido, porque os portugueses, como dizia Marquês de Pombal, o governante que o povo português mais reverencia, “só trabalham de chicote na mão.” Ora, esta teoria pombalina não se aplica ao Tintim. O Tintim gosta de ser tratado como cidadão dos países civilizados do norte da Europa e não aos pontapés como os portugueses.  

O Tintim recorda-me constantemente a minha avó Assunção. A minha avó criou-me, após a morte do meu pai, quando eu tinha nove anos, como uma verdadeira mãe. E havia uma frase que ela repetia constantemente, provavelmente com receio que eu me esquecesse, e que continua a fazer eco dentro de em mim: “Sou capaz de dar a vida por um filho ou por um neto, mas nunca me dêem pontapés”.

Ora, o Tintim encarna na perfeição o carácter da minha avó. A bem temos o que queremos do Tintim, mas ninguém lhe dê pontapés…

Uma vez, cerca de meia-noite, numa daquelas noite de inverno que até custa meter o nariz de fora dos lençóis, fui dar uma volta com o Tintim pela zona ribeirinha, como era meu costume. Para quem não me conheça, eu vivi sempre em rota de colisão com as rotinas do cidadão comum. “Todos tiveram pai, todos tiveram mãe; (…) mas eu nasci do amor que há entre Deus e o Diabo. (…)” E nunca vou por onde me mandam. Fui sempre a formiga no carreiro que vinha em sentido contrário.

Para além de não ser católico, nem socialista, nem benfiquista, tinha o hábito de me deitar, quando a maioria das pessoas se levantava, e saía de casa para desentorpecer as pernas, quando o povo já dormia profundamente, seguindo o sábio provérbio chinês: “Deita-te cedo e levanta-te cedo e não encontrarás ninguém interessante na vida.” E posso hoje afirmar, por experiência própria, que o sábio chinês estava cheio de razão.

Mas regressemos à nossa história na zona ribeirinha, para não perdermos o fio à meada. Como todos os Fox Terrier, o Tintim é um cão teimoso e, se vê um gato na rua, dispara a correr. E isto chateia-me, porque eu gosto de gatos. Ora, nessa noite de inverno na zona ribeirinha, salta-nos um gato ao caminho e, por mais que eu chamasse o Tintim, nunca mais lhe pus a vista em cima. Corri a zona ribeirinha de norte a sul, debaixo de um frio de rachar e uma chuva miudinha que se entranhava pelos ossos dentro. Raios parta o cão! E, quando já estava disposto a regressar a casa sem o cão, dou de caras com o Tintim empoleirado numa árvore e com o gato uns metros mais acima. Passei-me completamente! Se apanhasse o cão, desfazia-o. Só que o Tintim leu nos meus olhos o que lhe estava prestes a acontecer... E vai daí enfiou-se dentro da água gelada do rio Sor, ficando só com a cabeça de fora a olhar para mim. E enquanto eu, da margem, lhe rogava pragas e lhe fazia ameaças de morte, o Tintim só me dizia: “se és homem, vem-me cá buscar.” Foi aí que eu percebi que o Tintim era da raça da minha avó Assunção: também não gostava de ser tratado a pontapés.

O Tintim cresceu juntamente com a Vitória, uma rafeira alentejana, como irmãos inseparáveis. E se o Tintim era a genica em pessoa, a Vitória era uma paz de alma, com quem o Tintim gostava de andar sempre a implicar, sem se amedrontar com o seu tamanho, puxando-lhe o rabo e toureando-a, ao ponto de a Vitória se passar completamente com ele, sem nunca o conseguir apanhar.

A minha avó tinha sempre uma frase na ponta da língua para atirar à cara de quem, como eu, costumava fazer as coisas segundo a lei do menor esforço: “A preguiça nunca fez brilhar ninguém”. E a verdade é que o Tintim nunca foi um cão preguiçoso. Pelo contrário, sempre foi um cão muito activo e disponível para todo o tipo de brincadeiras, desde ir buscar e trazer a bola, subir e descer o escorrega, dar mergulhos para a água, nadar, jogar ao esconde-esconde, demonstrando uma energia inesgotável que faz as delícias dos meus netos. É o cão ideal para as crianças. Tem uma paciência de Job e uma energia de um atleta de alta competição. A minha neta com onze meses adora dar-lhe biscoitos, porque o Tintim é de uma delicadeza enorme a tirar-lhe o biscoito da mão, tal como acontecia com a Vitória entretanto falecida.

Na vertente desportiva, eu e o Tintim temos muitos pontos em comum. Fui um desportista a vida toda. Até aos trinta anos, dediquei-me mais aos desportos colectivos: futebol, andebol e voleibol. Depois dos trinta anos, por razões profissionais e de tempo, passei a jogar futsal com os amigos e a praticar Judo e Karaté de que sou, respectivamente, cinturão castanho e cinturão negro.

Acontece que há uma altura na vida, que o meu tio Armando me disse que se situava na casa dos 50 anos, em que uma pessoa, para usar a expressão do meu tio, leva uma porrada que nunca mais volta a ser o mesmo. Eu levei essa porrada em Março de 2012, quando tinha 53 anos de idade. Nesse dia, quando saí do escritório, depois de ter feito 40 km de bicicleta, senti dificuldade em andar. Um amigo meu, médico, aconselhou-me uma consulta no ortopedista do Hospital de Abrantes. Analisada a radiografia, disse-me o ortopedista que tinha de deixar de fazer bicicleta e de correr, porque tinha calcificados os tendões de Aquiles, o que era a consequência natural de uma vida com desporto em excesso. “Que idade é que o senhor tem?” Tenho 53 anos. “Já fez análises a isto e àquilo?” Não. “Está na hora de fazer.” Quando recebi o resultado das análises, levei cá uma porrada que me vi à rasca para me voltar a levantar. E ainda hoje ando tipo tem-te-não-caias. Razão tinha o meu tio Armando… E o pior é que o filme não anda para trás.

Com o Tintim passou-se, mais ou menos, a mesma coisa. Em Maio de 2020, reparei que o Tintim andava a coxear. Levei-o ao ortopedista, que lhe fez precisamente a mesma radiografia que me tinha feito a mim, e o diagnóstico foi o mesmo. Também teve de deixar de andar de bicicleta e de praticar atletismo, para passar a fazer uma vida mais sedentária e caseira.

Hoje somos dois velhos e inseparáveis amigos que vivem a vida da mesma forma e sem grandes expectativas. Um dia de cada vez à espera que chegue o dia. Vamos jogando ao jogo do dominó nos bancos do meu jardim e recordando as nossas proezas desportivas. Entretanto, já fiz ao Tintim o mesmo pedido que a minha avó Assunção me fez a mim e que eu não fui capaz de cumprir.

A minha avó Assunção faleceu no dia 20 de Novembro de 1989 no Hospital de Abrantes. E trinta e um anos após a sua morte, ainda me pesa na consciência não ter sido capaz de cumprir a promessa que me fez prometer: “Quando chegar a minha hora, nunca deixes que me levem para o Hospital. Quero morrer na minha casa para que o meu último olhar possa encontrar alguém que me seja querido por perto”. No entanto, quando a minha avó entrou em coma diabético naquele dia, apesar de ser previsível que fosse o seu último dia, não tive coragem de cumprir a promessa.

Mas eu também não quero morrer numa cama de hospital e espero que a minha avó abra, desta vez, uma excepção e me perdoe o pontapé que lhe dei. Por isso, já fiz um pacto com o Tintim para que nenhum de nós deixe que o outro vá morrer longe de casa. E, se tudo correr bem e a minha avó permitir, dormiremos juntos o sono eterno debaixo da oliveira da Vitória.

Santana-Maia Leonardo