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COLUNA VERTICAL



Segunda-feira, 09.02.15

Uma intensa nuvem de desejos

José Pacheco Pereira - Público de 1-2-2015

Uma das coisas que a vitória do Syriza e o conjunto de eventos posteriores têm mostrado é a sua importância para todo o espectro político da Europa. Neste sentido, os gregos podem falhar em tudo, que nada será de novo igual nem na Grécia, nem na Europa.

Quando um acontecimento gera tão intensos sonhos e pesadelos, estamos perante a história. Pode ser uma nota de pé de página, um parágrafo de meia dúzia de linhas, mas ficará na história da Europa. Embora não esteja certo, admito que possa vir a ser o mais importante momento europeu depois da unificação alemã.

Há quem considere que nada disto tem importância, até pela irrelevância da Grécia no conjunto das economias da União Europeia, ou pelo seu papel de minúsculo David face ao Golias alemão. Mas David matou Golias apenas com uma funda... Seja como for, mais do que não ter importância, é o desejo de que não tenha importância e o mundo volte ao conforto do habitual. (...)

Os adversários do Syriza, que são os “ajustadores inevitáveis”, sabem que se deu um ponto sem retorno. Nós sabemos disso e eles sabem que nós sabemos que eles também sabem. Mas um ponto sem retorno não significa que o caminho seja unívoco, apenas que as coisas já não voltam para trás. Mesmo que, no fim de tudo isto, o Syriza seja varrido da governação, os gregos remetidos para uma maior pobreza, e os alemães e os seus aliados e colaboracionistas tenham conseguido domar a “revolta” grega, a paz podre destes últimos anos não mais voltará. (...)

A versão dura é o desejo que o Syriza traia de forma evidente o que prometeu, aceite um acordo de fachada, para que tudo continue na mesma. Que o Syriza apareça aos olhos de todos como um bando de oportunistas, demagogos, irrealistas, que se venderam por um prato de lentilhas, as mesmas lentilhas “inevitáveis” que a Nova Democracia servia e que funcionavam como conforto para governos colaboracionistas como o português.

Aí haveria o desejo de que o Syriza encontrasse aquilo que eles chamam a “realidade” de frente, de preferência sob a forma de um choque frontal com medidas de retaliação, que punam os gregos pelo modo como votaram. É o desejo maldoso de que os gregos sejam punidos com mais austeridade, porque contestaram a austeridade, ou não a aplicaram com a ferocidade que deveria ter tido. (...)

Claro que, do outro lado, há também uma outra série de desejos, nem todos recomendáveis. Um deles é o de que o Syriza faça por “nós” aquilo que não somos capazes de fazer, faça pela esquerda aquilo que ela não é capaz de fazer, usar o mimetismo com o Syriza sem se ser capaz de fazer o lento trabalho de implantação que ele fez. Ou desejar ganhar eleições copiando o Syriza no plano antiausteritário e ignorar os aspectos soberanistas e patrióticos que o fizeram sair da exclusividade extremista. (...)

Eu também tenho um desejo simples e modesto, com muito poucas ilusões. Desejo que as coisas corram bem para os gregos, que eles comecem a sair do buraco infernal em que foram colocados, e que possam, pelo seu acto corajoso de votar contra o statu quo, mostrar que a ditadura da “inevitabilidade” é um deserto mental perigoso, útil para se subordinar Portugal aos poderes europeus e alemães, fragilizar a democracia e empobrecer os portugueses. É por isso que a milhas do Syriza se pode saudar a mudança que o Syriza trouxe a um mundo estagnado e pantanoso, maldoso e desigual. Não preciso de explicar mais nada, pois não? 

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