Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

21 Fev, 2015

Volatilidade

José Pacheco Pereira - Público de 21-2-2014

(...) Aquilo que se tem chamado a “ditadura dos mercados” é a forma moderna de fusão dos interesses económicos com a política, que já não permite a caricatura dos capitalistas de cartola, senhores do aço e das fábricas de altas chaminés, mas sim os impecáveis banqueiros e altos consultores vestidos depin stripes, assessorados por uma multidão de yuppies vindos das universidades certas com o seu MBA, que num qualquer gabinete do HBSC movem dinheiro das ilhas Caimão para contas numeradas na Suíça. Entre os perdedores não está apenas quem trabalha, no campo ou nas fábricas, ou a classe média ligada aos serviços e à função pública, mas estão também os interesses económicos ligados às actividades produtivas, ao comércio que ainda não é apenas uma extensão de operações financeiras, e à indústria.

A rasoira que tem feito na Europa, usando com grande eficácia as instituições da União Europeia, não é da “política” em si, porque o que eles fazem é política pura, mas sim de qualquer diversidade política, tendo comido os partidos socialistas ao pequeno-almoço, com a ementa do Tratado Orçamental. É por isso que, nestes anos do “ajustamento”, o PS foi muito mais colaborante no essencial do que os combates verbais pré-eleitorais indiciam, com os socialistas europeus domados pelos governos do PPE como se vê na questão grega. (...)

O que vai estar em cima da mesa nas próximas eleições é manter ou afastar este Governo, e muitos portugueses votariam numa pedra inerte se essa pedra afastasse — eles diriam corresse com — Passos e Portas. É isso que favorece a bipolarização. Por isso, o PS tem aqui uma última oportunidade, que aliás tem feito tudo para não merecer, para não caminhar no mesmo sentido do PASOK. Mas o PS acomodou-se muito a tudo o que existe de mais conservador na vida política portuguesa. Tem a obsessão da “responsabilidade”, uma forma de as elites poderosas em Portugal, sociais, económicas e mediáticas, castrarem a dinâmica e a inovação política, tem medo de sair do casulo da alternância soft e aceita as variantes do “morto” que o aconselham a “fazer de”, como meio de chegar ao poder.

Ter um alter-primeiro-ministro em vez de um líder da oposição é a melhor garantia de uma “vitorinha”, o resultado que mais garantirá a instabilidade política e cuja vítima será sempre a prazo o PS. Haverá certamente muitas palmas das “forças vivas”, os de sempre, receberá muitos elogios dos comentadores do regime, mas não mobilizará os portugueses em número suficiente para existir uma maioria absoluta e sem ela as piores tentações do poder virão ao de cima.

É por isso que o estado da política portuguesa é o de uma instabilidade endémica, de uma grande volatilidade.